É só mais um dia
De 12 de Maio de 2002, este poema tenta ilustrar alguma mágoa antecipada das energias em contrariedade, e um certo conformismo triste a que ela conduz, partindo-se aqui de um cenário mais concreto que, por exemplo, no poema anterior.
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Desânimo no meu olhar,
é mais um acordar.
Desasossego estremece
ainda, lamúrios pendentes
retraem-se, escovo os dentes.
E enquanto o ardor arrefece,
escondo-me em projecções.
Faço de mim um poeta,
uma estrela, um cometa,
do desejo as manipulações.
Estabeleço as metas deste dia,
da vindoura escrita a caligrafia.
Prometo a mim mesmo novidade
no comportamento, na ansiedade
produzida, produzo o esquecimento...
Concluída esta primeira fantasia,
chega-me da rua o sabor a anarquia,
piso-a, decidido, como um íman,
o meu passo enche-me de alimento.
Vigor, saúde, de mim tento ser fã...
Mas a cegueira é parcial.
Eclipsado, um mero animal,
guardo contudo a consciencia
de que a nada tenho aderencia.
Aguardo o primeiro deslize...
E eis senão que, maltrapilho,
me precipito para longe do trilho.
Criadas as raízes, faltava o tronco.
Algum substancial esboço de virtude,
algo que fosse algo, mesmo que rude.
Sob a névoa matinal, efémeras
se desmoronam estas quimeras,
improvisadas pelo rancor extasiado
da minha insaciável dor de não amado.
Suspiro... e noto que não saí de casa.
Indolor, tanta a mágoa,
deixo-me ir, como a água
de um grande rio.
Rio, por entre uma lágrima,
e abro a persiana - é estio.
Ser parte desta claridade,
que monotonia! Descer à cidade
é condenar-me à máscara
que faz de mim um pária
desta sociedade bárbara.
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Desânimo no meu olhar,
é mais um acordar.
Desasossego estremece
ainda, lamúrios pendentes
retraem-se, escovo os dentes.
E enquanto o ardor arrefece,
escondo-me em projecções.
Faço de mim um poeta,
uma estrela, um cometa,
do desejo as manipulações.
Estabeleço as metas deste dia,
da vindoura escrita a caligrafia.
Prometo a mim mesmo novidade
no comportamento, na ansiedade
produzida, produzo o esquecimento...
Concluída esta primeira fantasia,
chega-me da rua o sabor a anarquia,
piso-a, decidido, como um íman,
o meu passo enche-me de alimento.
Vigor, saúde, de mim tento ser fã...
Mas a cegueira é parcial.
Eclipsado, um mero animal,
guardo contudo a consciencia
de que a nada tenho aderencia.
Aguardo o primeiro deslize...
E eis senão que, maltrapilho,
me precipito para longe do trilho.
Criadas as raízes, faltava o tronco.
Algum substancial esboço de virtude,
algo que fosse algo, mesmo que rude.
Sob a névoa matinal, efémeras
se desmoronam estas quimeras,
improvisadas pelo rancor extasiado
da minha insaciável dor de não amado.
Suspiro... e noto que não saí de casa.
Indolor, tanta a mágoa,
deixo-me ir, como a água
de um grande rio.
Rio, por entre uma lágrima,
e abro a persiana - é estio.
Ser parte desta claridade,
que monotonia! Descer à cidade
é condenar-me à máscara
que faz de mim um pária
desta sociedade bárbara.

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