Retalhos de escuridão

Refulgir da Névoa Passada

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Localização: Lisbon, Portugal

sexta-feira, abril 06, 2007

De 7 de Agosto de 2002, texto de um e-mail, esta pequena digressão por uma hipotética paisagem nocturna, ensaiando uma abordagem mais directa, mais descritiva, mas de uma forma que se quer poética ainda, a aproximação a uma determinada riqueza do molde assumindo em mim uma quase que importância vital.

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1.20 da manha. um vulto perpassa a entrada do cais, decidido e rotineiro. em seu redor, dispersos, os travos de urina e restos de multidões.

garrafas vazias, beatas. interrompendo gradualmente o seu progredir, tira o telemóvel do bolso, e, refreando de vez o passo, busca.

acima, acima, vá, mais rápido, ups! desce um. um curto fitar. isso, confirma. prime.
as saudações indispensáveis, seguidas do inesperado.
"o quê?! já lá não estão??"
algum espanto por disfarçar.
"já acabou a noite, é?" ... "vá, fica bem"

agora, um momento de suave resignação, e a fatídica meia-volta. novamente a extensão do cais pela frente, no seu mesmo tom seco e apintalgado de agitação urbana. nada mais digno de nota nas proximidades, para além do banal, mas positivo, policiamento.

segue-se um breve passeio à beira-rio, interrompido pelo retorno fatídico. por companhia, um velhote caricato e um taxímetro.

impávida, a madrugada.

e a Lua... ó! a Lua...

terça-feira, fevereiro 13, 2007

luz

Creio que do mesmo dia (ou melhor, da mesma noite), este apelo ao preenchimento, fruto de no final do dia desejar projectar-me numa realidade alternativa, querer apagar as sensações descritas no poema anterior, seguido de diversas considerações relacionadas.

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ESCREVAM QUALQUER COISA!... que eu estou a ficar analfabeto... com tão pouco para ler... só me apetece em chavões incorrer e suspirar esvaíndo-me, adormecer... olhar para o mundo pelos olhos de uma criança, refilão, e na minha inocência atacar toda a gente, munido de n pontos de vista, perfeitamente desconexos e irrealistas na sua limpidez preciosa. mas de que servem as palavras de uma criança?? o riso dos crescidos eh uma coisa tão podre, tão falsa... tão risível!... e brindase ah embriaguez, e procura-se a forma mais fácil de cometer suicídio, e finda-se dias de pesar com mais um bocejo e mais um sorriso simbolicamente triste. a aversão é uma coisa que, tal como Deus, está em todo o lado, por dentro, por fora, na demora do inevitável. o sonho, esse, é tímido, talvez por saber que é indispensável, gasolina etérea do pensamento. inconformadas vítimas da sua sina, o fiasco, pálpebras pesadas, sob o avistar de auras mentirosas, a sôfrega dualidade da verdade arrasta-nos para o seu covil, a distâncias variáveis, mas que nunca se anulam. em todo o meu redor, instâncias federais da sensação barram-me a perseguição, e cegam-me, e esqueço-me que são elas que eu busco, e prossigo. progressivamente zonzo sento-me, tremo de frio, aperto algo que se acerca, tento beber desse algo, fumar desse algo, penetrar nesse algo, e envolvo-o tanto em mim, que me torno num cerco que teimo em manter, em enferrujados tons de rosa, rosa murchando, apagando-se, infeliz disfarce para a minha frustração como peça de puzzle. e num anormalmente lúcido amanhecer, desprendo o pionnais, ahhhhh a dor e o alívio em serena acoplagem, suave o cravo que arranco do meu órgão palpitante. desdigo tudo o que digo, procurando aniquilar toda a integridade latente às frases, procurando desfazer os nós de mim comigo mesmo, para que não mais possa a minha miséria afectar as réstias de sossego do mundo em redor. ela eh minha, e minha só. só eu tenho a obrigação de a sustentar. e rápido vejo que não há solução destinada a durar, por isso afogo-me em contradições inanimadas, convulsiono toda a minha essência, agito, abrando a vontade, acelerada a saudade, amor, ódio, espanto, sono, o desfile, a cruel passerelle interminável, que me enxota, até ao fim. onde... suplico... onde está luz... essa luz do fundo do túnel???

É só mais um dia

De 12 de Maio de 2002, este poema tenta ilustrar alguma mágoa antecipada das energias em contrariedade, e um certo conformismo triste a que ela conduz, partindo-se aqui de um cenário mais concreto que, por exemplo, no poema anterior.

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Desânimo no meu olhar,
é mais um acordar.
Desasossego estremece
ainda, lamúrios pendentes
retraem-se, escovo os dentes.

E enquanto o ardor arrefece,
escondo-me em projecções.
Faço de mim um poeta,
uma estrela, um cometa,
do desejo as manipulações.

Estabeleço as metas deste dia,
da vindoura escrita a caligrafia.
Prometo a mim mesmo novidade
no comportamento, na ansiedade
produzida, produzo o esquecimento...

Concluída esta primeira fantasia,
chega-me da rua o sabor a anarquia,
piso-a, decidido, como um íman,
o meu passo enche-me de alimento.
Vigor, saúde, de mim tento ser fã...

Mas a cegueira é parcial.
Eclipsado, um mero animal,
guardo contudo a consciencia
de que a nada tenho aderencia.
Aguardo o primeiro deslize...

E eis senão que, maltrapilho,
me precipito para longe do trilho.
Criadas as raízes, faltava o tronco.
Algum substancial esboço de virtude,
algo que fosse algo, mesmo que rude.

Sob a névoa matinal, efémeras
se desmoronam estas quimeras,
improvisadas pelo rancor extasiado
da minha insaciável dor de não amado.
Suspiro... e noto que não saí de casa.

Indolor, tanta a mágoa,
deixo-me ir, como a água
de um grande rio.
Rio, por entre uma lágrima,
e abro a persiana - é estio.

Ser parte desta claridade,
que monotonia! Descer à cidade
é condenar-me à máscara
que faz de mim um pária
desta sociedade bárbara.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Consciência

A 17 de Março de 2002, após um primeiro semestre de universidade e uma certa dedicação / actividade, e a esperança maior de assim preencher a vida. Facto é que aos poucos se firmam novas percebidas limitações à inconsequência da vontade social, e a consequente nova depressão da confiança generalizada. A ilusão de um novo eu universitário e científico já não estava a resultar. Porém, como a altura ainda era de possibilidades várias e os confrontos ainda o eram, este é um poema que resulta da expressão bastante pura e sentida de tal, de novo as angústias e as forças a medir-se mútuas.

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Com desdém, sem alento, prossigo
Enauseado pelos trágicos carinhos,
Desfiados véus; tumultuosos vinhos
Em mim se inibem – é o castigo.

É a dor, é o ódio e é o pranto, e longe
Os céus assumem-se miragens,
Passivos, infindos, belos, murchas vagens
Do fictício sonho, a Mentira do monge.

Sugo sofregamente réstias de vida,
Aumentando a morbidez crescente
Do Pensamento, tormento da mente.
Mas a Terra roda, mal grado esta ferida.

Ergo-me, rodopio, persigo a própria cauda,
Busco a anestesia até ficar exausto,
A ilusão esbatida; no limiar do Holocausto
Tal é a frustração, maciça fralda.

Ah! Flutuar descomprimido
Por entre nuvens sorridentes,
Não cientes
Dos naufrágios, das enchentes,
Dos relâmpagos reluzentes,
E então fluir
Num oceano hormonal,
Para depois eclodir
Num orgasmo infernal,
Suando litros de sémen,
Fundindo com o prazer
Toda a Carne, todo o Ser;
Sentir, dizer, tilintar,
Expelir tudo e urrar,
Espalhando-me pelo Cosmos...

E, supremo magnânime axioma,
Aniquilar por fim esta inaudível voz
Que, omnipresente, se impõe atroz
Sobre mim – em mim cativo, triste redoma.

Miserável

De 10 de Março de 2001, estes versos são fruto de uma espécie de catárse tentada, procurando, do alto da miséria interior de então, avistar alguma viabilidade imediata do ser-me, apelar ao orgulho íntimo para reverter a situação de anulação perante a sociedade, usando como arma alguma consciência enraivecida. Sem primar pela absoluta consistência (de salientar a forma difusa e bizarra como no final adiciono um teor pretensamente anticristão) ou pelo valor estético, tem a sua dose de representatividade e de intensidade. Algo deste tom de ódio e desprezo é emprestado, d'aqui.

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sou um agnóstico sem cara...
cancro da minha própria existência...
carcaça vítima da mais mesquinha doença...
enfim sou o sintoma de toda a Vossa orgulhosa indolência!!

que é como quem diz a vossa ESTUPIDEZ!!!!!

irreverente para com o tédio
mas incapaz de para ele arranjar remédio
é uma barreira natural
que me desliga do banal


mas porque estou a insistir
e nestas frases a eclodir
é que sei que em breve vou chocar
e não vou ter forças para as remontar

não me bastaria chorar
para tentar recomeçar?


mas para além de nada conseguir
resta-me fugir sem ter para onde ir
e acabar por ser forçado a assumir
que nao há espaço sem lugar


assim como não ha dimensão sem luar.
sou como todos resignado a conformar
os meus dialectos da alma aos seus mudos veteranos,
palavras que sem nascer nos obrigam a lhes obedecer,

testamentos vivos, vivos testamentos
da morbidez da vida, do enorme zero da emoção
o gigante abismo da abstracção
e outras ruelas dos seus estados fedorentos.

derivado da vida eu sou a morte
eu espreito a vida e morro
eu vivo na morte, eu morro
eu vivo e morro e morro e morro

olhando para a vida prefiro morrer
embora o meu after-ego me empurre a viver
e é aí que incapacibilitado
nada mais me resta senão morrer

Basta de vidas e mortes
nada mais há para dizer
ao menos que nesta folha
consiga eu mal sobreviver

e parecendo que me estou armando
em algo de pseudo
o que estou na realidade é a escrever
porque não tenho mais nada que fazer...

armando-me.

se uns quantos têm a infelicidade
de poder na sua nulidade levar-se pelo instinto
são cabrões.
no entanto levados pelo coração são heróis

o que me leva a interrogar
afinal que espécie de animal
é esta que mata a sua própria espécie
e nos reduz a cinzas e migalhas

de um crime do qual não somos culpados!!

quem sois vós????

FILHOS DA PUTA!!!!

se eu acreditasse numa palavra do que vocês dissessem
andava por aí na catequese a aprender a vida santa de um abade
vestia-me à frade
tornava-me numa miserável amostra do quão baixo podemos descer

tudo para que alguns possam viver afastados
da crua vida real que enaltece a nossa mágoa
para depois a arrastar consigo
qual diluvio de Noé... ai se é!!

fracos são os humanos
que desprovidos de espirito
se fingem glorificar chamando nomes aos intelectos
dos grandes complexos nomes.

fraco sou eu mas assumo-o
e têm de perceber
que esses nomes não passam de nomes
que até qualquer um sabe escrever!

é assim que eu vejo a vida,
ou melhor a ausência dela
ou melhor a sua ausência em mim
ou melhor esta merda toda

que só me confunde e baralha
e confunde
e baralha e confunde e desfunde
e baralha

!! que se foda !!

quinta-feira, março 02, 2006

Este é o último escrito da compilação LEC. À semelhança do que fiz com a "Cruzadas Narcisistas", omiti alguns deles.

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Matar-te-ia, chamando-te parasita, para que não mais me sugasses até à sofrida morte. Viver-te-ia... fora de questão! Devido à minha maior morbidez viva – Tu própria.
Resta-me aniquilar-nos, acabando com a tua colorida insipidez. Linda concepção da minha cegueira, derrotando-me em ti!
Morrer antes de sofrer; Matar para não mais te ver; Em sonhos te continuar a escrever, louco foragido da morta vida onde faltas tu... Sofrer para não morrer – é morrer! Faltam-me as forças, que ainda me sugas, penetrante; estou condenado e tu és a minha cruz; agarrado a ti, viverei até à derradeira liberdade.

Solitária Síntese

Da mesma compilação, este poema tem a indicação "leblos", que significa "inanimadamente".

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Sou um entusiasta especulador
da Razão e Pensamento.
Embora nos furacões onde voa alegre a dor
seja um imóvel catavento.

E atordoa-me o não fazer parte
deste vicioso Sofrimento.
Atordoa-me estar como que em Marte
sem qualquer esporádico alento.

Defeitos internos

Da mesma compilação. Mudei ligeiramente o quarto verso por questões de sonoridade, sem lhe sacrificar o sentido.

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Sou infelizmente um anoréxico do Pensamento.
Embora acredite que ao viver,
Se dispense o constante cruzamento
De ideias de que nada se quer saber;
Não que eu delas nada consiga extrair,
Mas simplesmente, e à luz cega do mundo
Parasita em redor, o meu tudo deixa de existir
Invísivel mas presente, lá no fundo.

Do vácuo pleno ao pleno vácuo

Da compilação LEC, mais este escrito:

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Fazendo uma sátira à inexistência das minhas inúmeras ideias, meus imensos pensamentos, todos os infindáveis estados de abstracção imaginária, faço porém também juz ao injusto mundo de forças que nos rodeiam, pressionantes, elevando-nos eufóricas e infalíveis para enfim nos libertar desde alturas diabólicamente ao serviço da estúpida lei da gravidade. Faço juz portanto ao discreto, inflexível, não por resignação mas por Natureza, Nada, que ao nos expôr a tudo o que fictíciamente nos ilude por dentro e nos transforma por fora, nos suga e depois nos esmaga. Absorvidos, resta ironizar-nos até ao derradeiro final dos nossos dias vazios...

Querendo penetrar na tua essência

A 7 de Março de 2001 criei uma outra compilação de escritos de onde vem este, e a esta compilação chamei de "LEC". Não me recordo porém do significado da sigla.

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Se tu fosses um brinco, eu seria a tua orelha, vacilante em te receber doirada e crivada de diamantes, temendo derreter-se em insignificância ante a tua circular presença, mais que englobantemente penetrante, ou, antevendo-me numa pseudo-maré erróneamente límpida (contudo crispada e ondulada), resistiria à palidez do meu carácter febril para que enfim me mutilasses.
Fosses tu esse brinco, e não fosse eu por lei de Darwin uma eterna orelha a mutilar, seria eu à melhor das hipóteses o teu resignado pseudo-progenitor, derretendo calorosamente a tua jamais influenciada alma, transformando-a primeiro em afrodísiaca papa de singelo oiro líquido, autoritariamente ébrio, sóbrio na ilusão, efervescente por te moldar, incapaz de te igualar. Mas eu não passo de ser a ausência de algo ser!

Este poema, de 21 de Dezembro de 2000, procura encarnar um típico poema de amor, no sentido típico da palavra. Achei piada quando o encontrei, por reconhecer nele bastantes semelhanças (no formato) com o poema "Consciência", um poema meu bastante posterior, e que é o mais aclamado pela crítica (lol).

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Saio para a noite, ansioso o meu coração,
oiço lá bem ao longe o ruidoso latir de um cão.
Mas o que eu queria mesmo era o sinal de alvorada
que este poema transformasse em canção.

É que amanhã, quando eu estiver a recitar,
vou poder ver-te a sorrir, ver o teu singelo olhar,
embora, caramba, ele seja uma bela cilada,
algo de musical fica solto no ar.

E não penses que eu me pus isto a construir
porque se eu deliro, é apenas porque me fizeste cair
num abismo sem saída nem entrada
daqueles que não leva a nada,
sem espaço para respirar,
sem sossego para pensar,
sem tempo para parar,
com uma inércia de matar,
um só sentido a percorrer,
sempre e somente a descer,
nada mais para fazer
a não ser render-me e esperar,
a não ser observar
o distante luar.

E deixar que esta estranha ansiedade
se apodere de mim
na esperança que tu, minha beldade,
tenhas paciência para me ouvir até ao fim.

quarta-feira, março 01, 2006

Sono Mágico

Ainda da compilação Cruzadas Narcisistas, este poema é dedicado ao "Nirvana do Tempo", abordando e tentando-se reger por esse mesmo elemento.

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Os meus órgãos, já não são parte de mim,
Pelo menos por agora.
Os meus limites, estenderam-se até ao fim
E levaram-me embora,
Desta vida para fora,
Deste mundo para fora,
Para lá de Vila Moura,
Onde toda a gente chora;
A todos adeus.
Lágrimas, ânsias, tudo à mistura,
Mas acima de tudo com muita ternura,
Enquanto está ao meu alcance,
Pois estou a entrar no transe
Que de vez me levará.
Com este verso me vou!
Já está...

Este poema, também da compilação Cruzadas Narcisistas, é dedicado à "arte inopinada", e é uma simples crítica ou objecção aos costumes induzidos apenas pela ética no comportamento de alguém.

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Eu vejo a inocência,
Em confronto com a decência,
Noções bem definidas,
Filosofias perdidas
No auge da monotonia.

Sabe-me a pouco,
Mas para ele é tanto!
Devo ter pena, sendo louco,
Ou ódio e raiva, quase pranto?
Estes dilemas dão-me azia...

Geh Weg!

Este poema é de, o mais tardar, 30 de Novembro de 2000, mas provavelmente é anterior, embora não muito. É dedicado à "Srª. Cerveja", e o título em português significa "Vai-te embora!". Faz parte de um conjunto de coisas que eu houvera escrito, isoladas, e que compilei num ficheiro intitulado "Cruzadas Narcisistas", de que não postarei grande parte, por ter muitos devaneios terminológicos essencialmente idiotas.

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Afasta-te sobriedade,
que queres afinal de mim?
Sou um pobre carcomido pela cidade
que só quer esquecer que nesta sociedade
o Tudo não é Nada e que eu não sou Assim!

Onde estás, Infância?

De 9 de Novembro de 2000, este que é o ponto em que a minha vontade de me exprimir e às minhas angústias trazidas noite dentro culmina em definitivo, sob esta forma motivada pelo recente impacto que uns ou outros poemas me houveram causado nas aulas de português. Se há um ou outro (muito poucos) par de versos que fiz anteriores, são coisas curtas e de menor intensidade.
Originalmente organizei isto de uma forma muito peculiar... As duas primeiras interrogações como título, as duas próximas como complemento do título, em parêntesis, e a quadra seguinte, em rodapé, como apóstrofe à palavra "leite"... Parece-me que o que faz mais sentido é interpretar essas duas quadras como um prelúdio ao poema em si. Separo-as aqui do resto por reticências.

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Infância, onde estás?...
Que será de ti feito?
Só no passado existirás?...
Esgotou-se o leite do teu peito?...

Independente do que se passa lá fora,
Jorrarás eternamente na minha imaginação,
mesmo que, não digerido outrora,
Te Tenha transformado em pura aberração.

.......

E é quando o fluxo da demência começa a aumentar
que eu me sinto à deriva num temporal sem fim
e é aí que eu, abandonado neste retórico mar,
sinto a nostalgia de quando às vezes não é assim.

Pois o problema é que, por mais que eu tente lutar,
não há ilusões permanentes, não há rosas não doentes
que sobrevivam a tantos espinhos. E é ao chegar
presença em mim tão ausente, que eu vislumbro
a enraizada origem dos mortais redemoinhos.

Não é surpresa para mim, quando a água me balança
para esse mesmo núcleo, pois sei que é o meu destino.
Porém, entristece-me, pois perdura sempre a esperança
de viver livre, como um selvagem felino.

Infelizmente sou humano,
fujo do meu equilíbrio.
Descontenta-me não ter mano,
nem casaco quando tenho frio.

No entanto, a razão porque mais me irritas,
não são estes lugares-comuns
que, sendo cassetes, gastas têm as fitas,
tanto é o uso que lhe dão quaisquer uns.

Loucura vil, estúpida e egoísta;
cruel e fria! o que em ti o ódio me suscita
é em nada seres calculista.
E porquê? É simples, sou louco
(apesar de nunca ter levado na marmita.)

Acresce-me dizer-te, embora não me oiças,
que nem o Filósofo fareja a tua pista
e sabes, quando dizes: “Aqui tens minha cauda! Avistas?”,
que a tua essência para bem longe bafejas,
ó Dragão de identidade mista.

Para terminar quero afirmar, convicto,
que este Dragão que eu tanto excremento
e segrego do Nirvana e do Bonito,
não passa duma desculpa para me dar alento.

Tenho dores de cotovelo
dos animais vertebrados
pois eles, para além do cabelo,
possuem estruturação
dos seus jardins, e não bosques,
de Abstracção.

Gostem ou não, é a realidade.
Há... Queriam, seus cérebros perversos!
Nesta vossa perpétua cidade
são grãos de areia, estes caóticos versos...
À semelhança de quaisquer outros que por aí se arrastam!