Retalhos de escuridão

Refulgir da Névoa Passada

Nome:
Localização: Lisbon, Portugal

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Consciência

A 17 de Março de 2002, após um primeiro semestre de universidade e uma certa dedicação / actividade, e a esperança maior de assim preencher a vida. Facto é que aos poucos se firmam novas percebidas limitações à inconsequência da vontade social, e a consequente nova depressão da confiança generalizada. A ilusão de um novo eu universitário e científico já não estava a resultar. Porém, como a altura ainda era de possibilidades várias e os confrontos ainda o eram, este é um poema que resulta da expressão bastante pura e sentida de tal, de novo as angústias e as forças a medir-se mútuas.

---

Com desdém, sem alento, prossigo
Enauseado pelos trágicos carinhos,
Desfiados véus; tumultuosos vinhos
Em mim se inibem – é o castigo.

É a dor, é o ódio e é o pranto, e longe
Os céus assumem-se miragens,
Passivos, infindos, belos, murchas vagens
Do fictício sonho, a Mentira do monge.

Sugo sofregamente réstias de vida,
Aumentando a morbidez crescente
Do Pensamento, tormento da mente.
Mas a Terra roda, mal grado esta ferida.

Ergo-me, rodopio, persigo a própria cauda,
Busco a anestesia até ficar exausto,
A ilusão esbatida; no limiar do Holocausto
Tal é a frustração, maciça fralda.

Ah! Flutuar descomprimido
Por entre nuvens sorridentes,
Não cientes
Dos naufrágios, das enchentes,
Dos relâmpagos reluzentes,
E então fluir
Num oceano hormonal,
Para depois eclodir
Num orgasmo infernal,
Suando litros de sémen,
Fundindo com o prazer
Toda a Carne, todo o Ser;
Sentir, dizer, tilintar,
Expelir tudo e urrar,
Espalhando-me pelo Cosmos...

E, supremo magnânime axioma,
Aniquilar por fim esta inaudível voz
Que, omnipresente, se impõe atroz
Sobre mim – em mim cativo, triste redoma.

Miserável

De 10 de Março de 2001, estes versos são fruto de uma espécie de catárse tentada, procurando, do alto da miséria interior de então, avistar alguma viabilidade imediata do ser-me, apelar ao orgulho íntimo para reverter a situação de anulação perante a sociedade, usando como arma alguma consciência enraivecida. Sem primar pela absoluta consistência (de salientar a forma difusa e bizarra como no final adiciono um teor pretensamente anticristão) ou pelo valor estético, tem a sua dose de representatividade e de intensidade. Algo deste tom de ódio e desprezo é emprestado, d'aqui.

---

sou um agnóstico sem cara...
cancro da minha própria existência...
carcaça vítima da mais mesquinha doença...
enfim sou o sintoma de toda a Vossa orgulhosa indolência!!

que é como quem diz a vossa ESTUPIDEZ!!!!!

irreverente para com o tédio
mas incapaz de para ele arranjar remédio
é uma barreira natural
que me desliga do banal


mas porque estou a insistir
e nestas frases a eclodir
é que sei que em breve vou chocar
e não vou ter forças para as remontar

não me bastaria chorar
para tentar recomeçar?


mas para além de nada conseguir
resta-me fugir sem ter para onde ir
e acabar por ser forçado a assumir
que nao há espaço sem lugar


assim como não ha dimensão sem luar.
sou como todos resignado a conformar
os meus dialectos da alma aos seus mudos veteranos,
palavras que sem nascer nos obrigam a lhes obedecer,

testamentos vivos, vivos testamentos
da morbidez da vida, do enorme zero da emoção
o gigante abismo da abstracção
e outras ruelas dos seus estados fedorentos.

derivado da vida eu sou a morte
eu espreito a vida e morro
eu vivo na morte, eu morro
eu vivo e morro e morro e morro

olhando para a vida prefiro morrer
embora o meu after-ego me empurre a viver
e é aí que incapacibilitado
nada mais me resta senão morrer

Basta de vidas e mortes
nada mais há para dizer
ao menos que nesta folha
consiga eu mal sobreviver

e parecendo que me estou armando
em algo de pseudo
o que estou na realidade é a escrever
porque não tenho mais nada que fazer...

armando-me.

se uns quantos têm a infelicidade
de poder na sua nulidade levar-se pelo instinto
são cabrões.
no entanto levados pelo coração são heróis

o que me leva a interrogar
afinal que espécie de animal
é esta que mata a sua própria espécie
e nos reduz a cinzas e migalhas

de um crime do qual não somos culpados!!

quem sois vós????

FILHOS DA PUTA!!!!

se eu acreditasse numa palavra do que vocês dissessem
andava por aí na catequese a aprender a vida santa de um abade
vestia-me à frade
tornava-me numa miserável amostra do quão baixo podemos descer

tudo para que alguns possam viver afastados
da crua vida real que enaltece a nossa mágoa
para depois a arrastar consigo
qual diluvio de Noé... ai se é!!

fracos são os humanos
que desprovidos de espirito
se fingem glorificar chamando nomes aos intelectos
dos grandes complexos nomes.

fraco sou eu mas assumo-o
e têm de perceber
que esses nomes não passam de nomes
que até qualquer um sabe escrever!

é assim que eu vejo a vida,
ou melhor a ausência dela
ou melhor a sua ausência em mim
ou melhor esta merda toda

que só me confunde e baralha
e confunde
e baralha e confunde e desfunde
e baralha

!! que se foda !!