Retalhos de escuridão

Refulgir da Névoa Passada

Nome:
Localização: Lisbon, Portugal

quinta-feira, março 02, 2006

Este é o último escrito da compilação LEC. À semelhança do que fiz com a "Cruzadas Narcisistas", omiti alguns deles.

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Matar-te-ia, chamando-te parasita, para que não mais me sugasses até à sofrida morte. Viver-te-ia... fora de questão! Devido à minha maior morbidez viva – Tu própria.
Resta-me aniquilar-nos, acabando com a tua colorida insipidez. Linda concepção da minha cegueira, derrotando-me em ti!
Morrer antes de sofrer; Matar para não mais te ver; Em sonhos te continuar a escrever, louco foragido da morta vida onde faltas tu... Sofrer para não morrer – é morrer! Faltam-me as forças, que ainda me sugas, penetrante; estou condenado e tu és a minha cruz; agarrado a ti, viverei até à derradeira liberdade.

Solitária Síntese

Da mesma compilação, este poema tem a indicação "leblos", que significa "inanimadamente".

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Sou um entusiasta especulador
da Razão e Pensamento.
Embora nos furacões onde voa alegre a dor
seja um imóvel catavento.

E atordoa-me o não fazer parte
deste vicioso Sofrimento.
Atordoa-me estar como que em Marte
sem qualquer esporádico alento.

Defeitos internos

Da mesma compilação. Mudei ligeiramente o quarto verso por questões de sonoridade, sem lhe sacrificar o sentido.

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Sou infelizmente um anoréxico do Pensamento.
Embora acredite que ao viver,
Se dispense o constante cruzamento
De ideias de que nada se quer saber;
Não que eu delas nada consiga extrair,
Mas simplesmente, e à luz cega do mundo
Parasita em redor, o meu tudo deixa de existir
Invísivel mas presente, lá no fundo.

Do vácuo pleno ao pleno vácuo

Da compilação LEC, mais este escrito:

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Fazendo uma sátira à inexistência das minhas inúmeras ideias, meus imensos pensamentos, todos os infindáveis estados de abstracção imaginária, faço porém também juz ao injusto mundo de forças que nos rodeiam, pressionantes, elevando-nos eufóricas e infalíveis para enfim nos libertar desde alturas diabólicamente ao serviço da estúpida lei da gravidade. Faço juz portanto ao discreto, inflexível, não por resignação mas por Natureza, Nada, que ao nos expôr a tudo o que fictíciamente nos ilude por dentro e nos transforma por fora, nos suga e depois nos esmaga. Absorvidos, resta ironizar-nos até ao derradeiro final dos nossos dias vazios...

Querendo penetrar na tua essência

A 7 de Março de 2001 criei uma outra compilação de escritos de onde vem este, e a esta compilação chamei de "LEC". Não me recordo porém do significado da sigla.

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Se tu fosses um brinco, eu seria a tua orelha, vacilante em te receber doirada e crivada de diamantes, temendo derreter-se em insignificância ante a tua circular presença, mais que englobantemente penetrante, ou, antevendo-me numa pseudo-maré erróneamente límpida (contudo crispada e ondulada), resistiria à palidez do meu carácter febril para que enfim me mutilasses.
Fosses tu esse brinco, e não fosse eu por lei de Darwin uma eterna orelha a mutilar, seria eu à melhor das hipóteses o teu resignado pseudo-progenitor, derretendo calorosamente a tua jamais influenciada alma, transformando-a primeiro em afrodísiaca papa de singelo oiro líquido, autoritariamente ébrio, sóbrio na ilusão, efervescente por te moldar, incapaz de te igualar. Mas eu não passo de ser a ausência de algo ser!

Este poema, de 21 de Dezembro de 2000, procura encarnar um típico poema de amor, no sentido típico da palavra. Achei piada quando o encontrei, por reconhecer nele bastantes semelhanças (no formato) com o poema "Consciência", um poema meu bastante posterior, e que é o mais aclamado pela crítica (lol).

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Saio para a noite, ansioso o meu coração,
oiço lá bem ao longe o ruidoso latir de um cão.
Mas o que eu queria mesmo era o sinal de alvorada
que este poema transformasse em canção.

É que amanhã, quando eu estiver a recitar,
vou poder ver-te a sorrir, ver o teu singelo olhar,
embora, caramba, ele seja uma bela cilada,
algo de musical fica solto no ar.

E não penses que eu me pus isto a construir
porque se eu deliro, é apenas porque me fizeste cair
num abismo sem saída nem entrada
daqueles que não leva a nada,
sem espaço para respirar,
sem sossego para pensar,
sem tempo para parar,
com uma inércia de matar,
um só sentido a percorrer,
sempre e somente a descer,
nada mais para fazer
a não ser render-me e esperar,
a não ser observar
o distante luar.

E deixar que esta estranha ansiedade
se apodere de mim
na esperança que tu, minha beldade,
tenhas paciência para me ouvir até ao fim.

quarta-feira, março 01, 2006

Sono Mágico

Ainda da compilação Cruzadas Narcisistas, este poema é dedicado ao "Nirvana do Tempo", abordando e tentando-se reger por esse mesmo elemento.

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Os meus órgãos, já não são parte de mim,
Pelo menos por agora.
Os meus limites, estenderam-se até ao fim
E levaram-me embora,
Desta vida para fora,
Deste mundo para fora,
Para lá de Vila Moura,
Onde toda a gente chora;
A todos adeus.
Lágrimas, ânsias, tudo à mistura,
Mas acima de tudo com muita ternura,
Enquanto está ao meu alcance,
Pois estou a entrar no transe
Que de vez me levará.
Com este verso me vou!
Já está...

Este poema, também da compilação Cruzadas Narcisistas, é dedicado à "arte inopinada", e é uma simples crítica ou objecção aos costumes induzidos apenas pela ética no comportamento de alguém.

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Eu vejo a inocência,
Em confronto com a decência,
Noções bem definidas,
Filosofias perdidas
No auge da monotonia.

Sabe-me a pouco,
Mas para ele é tanto!
Devo ter pena, sendo louco,
Ou ódio e raiva, quase pranto?
Estes dilemas dão-me azia...

Geh Weg!

Este poema é de, o mais tardar, 30 de Novembro de 2000, mas provavelmente é anterior, embora não muito. É dedicado à "Srª. Cerveja", e o título em português significa "Vai-te embora!". Faz parte de um conjunto de coisas que eu houvera escrito, isoladas, e que compilei num ficheiro intitulado "Cruzadas Narcisistas", de que não postarei grande parte, por ter muitos devaneios terminológicos essencialmente idiotas.

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Afasta-te sobriedade,
que queres afinal de mim?
Sou um pobre carcomido pela cidade
que só quer esquecer que nesta sociedade
o Tudo não é Nada e que eu não sou Assim!

Onde estás, Infância?

De 9 de Novembro de 2000, este que é o ponto em que a minha vontade de me exprimir e às minhas angústias trazidas noite dentro culmina em definitivo, sob esta forma motivada pelo recente impacto que uns ou outros poemas me houveram causado nas aulas de português. Se há um ou outro (muito poucos) par de versos que fiz anteriores, são coisas curtas e de menor intensidade.
Originalmente organizei isto de uma forma muito peculiar... As duas primeiras interrogações como título, as duas próximas como complemento do título, em parêntesis, e a quadra seguinte, em rodapé, como apóstrofe à palavra "leite"... Parece-me que o que faz mais sentido é interpretar essas duas quadras como um prelúdio ao poema em si. Separo-as aqui do resto por reticências.

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Infância, onde estás?...
Que será de ti feito?
Só no passado existirás?...
Esgotou-se o leite do teu peito?...

Independente do que se passa lá fora,
Jorrarás eternamente na minha imaginação,
mesmo que, não digerido outrora,
Te Tenha transformado em pura aberração.

.......

E é quando o fluxo da demência começa a aumentar
que eu me sinto à deriva num temporal sem fim
e é aí que eu, abandonado neste retórico mar,
sinto a nostalgia de quando às vezes não é assim.

Pois o problema é que, por mais que eu tente lutar,
não há ilusões permanentes, não há rosas não doentes
que sobrevivam a tantos espinhos. E é ao chegar
presença em mim tão ausente, que eu vislumbro
a enraizada origem dos mortais redemoinhos.

Não é surpresa para mim, quando a água me balança
para esse mesmo núcleo, pois sei que é o meu destino.
Porém, entristece-me, pois perdura sempre a esperança
de viver livre, como um selvagem felino.

Infelizmente sou humano,
fujo do meu equilíbrio.
Descontenta-me não ter mano,
nem casaco quando tenho frio.

No entanto, a razão porque mais me irritas,
não são estes lugares-comuns
que, sendo cassetes, gastas têm as fitas,
tanto é o uso que lhe dão quaisquer uns.

Loucura vil, estúpida e egoísta;
cruel e fria! o que em ti o ódio me suscita
é em nada seres calculista.
E porquê? É simples, sou louco
(apesar de nunca ter levado na marmita.)

Acresce-me dizer-te, embora não me oiças,
que nem o Filósofo fareja a tua pista
e sabes, quando dizes: “Aqui tens minha cauda! Avistas?”,
que a tua essência para bem longe bafejas,
ó Dragão de identidade mista.

Para terminar quero afirmar, convicto,
que este Dragão que eu tanto excremento
e segrego do Nirvana e do Bonito,
não passa duma desculpa para me dar alento.

Tenho dores de cotovelo
dos animais vertebrados
pois eles, para além do cabelo,
possuem estruturação
dos seus jardins, e não bosques,
de Abstracção.

Gostem ou não, é a realidade.
Há... Queriam, seus cérebros perversos!
Nesta vossa perpétua cidade
são grãos de areia, estes caóticos versos...
À semelhança de quaisquer outros que por aí se arrastam!